domingo, 30 de outubro de 2016

sábado, 1 de outubro de 2016

Rebouças & o Suor das Noivas


a saudade sua

nos vestidos de noiva

e eles ficam molhados

com a saudade das noivas

Suadas de saudade,

cada passo até o altar

é uma saudade da abandonada esquina

cada passo,

apertado no sapato,

até chegar à aliança

é uma gota de saudade

que  cai da axila

saudade dos segredos desejos

retidos na bexiga

"mijada, suada de saudade"

e de vontade

a noiva denuncia

toda a gana de diluir-se, véu e grinal

no trânsito da avenida



para Marina Melo, sua Saudade e sua Rebouças


terça-feira, 13 de setembro de 2016

"Seguir até Sumir"*

seguir cega,

resseca,

até

sumir

quem segue



*brincadeira com o poema "Orfeu", de Paulo Leminski, musicado por José Miguel Wisnik

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Dor de dente, dor de Deus

                        "a dor é de quem tem"
                                   Segundo Marisa Monte


A Dor é mais real que deus

a Dor nós temos, a Dor nos tem

E, em nós, alcança

dos dentes aos cotovelos
dos dedos de gente às gentes sem dedos 

Até deus, ainda que em segredo,
tem Dor
(e a Dor tem deus também)

Mesmo que deus,

como se tem Dor,

ninguém tenha

Mesmo que com deus, como se está com Dor, ninguém esteja.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

tempo de templo

Pra eu ser
meu templo
no meu tempo
quero que seja em mim
O meu tempo de templo

Mapa


Me revelo pra mim quando subo o trauma

Em mim, ele forma relevos

que ao percorrer, me conheço

Pequenas elevações no corpo

e na alma

que vão

desde o galo na testa

até o inchaço da nossa despedida

Não relevo

                   (nem revelo

 meus relevos

Assim como dependo de subir a Rua da Glória

Pra chegar em casa

Se escalo montanhas urbanas pra descansar na minha sala

Por que não subir meus relevos

e revelar a minha cara?

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Menarca da tarde


O Sol

fica vermelho, desce,

e o dia cresce

O Sol

é menstruado 

pela vulva do céu

Expulso em hemorragia

Ele faz o dia virar mulher,

virar 
a noite.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

O Dia SEm DEntes



Quem não tinha dentes?
o dia ou a gente?
ou aquilo só era o dia da pessoa não ter dentes?
o dia da pessoa não comer nada,
o dia da pessoa não roer as unhas até o fim,
o dia da pessoa não morder as extremidades da caneta BIC,
o dia da pessoa não ter o que ranger,
o dia da pessoa não ter no que roçar a própria língua
com exceção do céu da boca]
o dia da pessoa não machucar ninguém
E as pessoas que não tem dia separado,
pra não ter dentes?
e Seus dentes são ausentes
Na boca de seus dias faltam dentes
Quando o dia dos desdentados depende da boca deles
pra ter dentes

Não só há dias sem dentes
Há ruas banguelas espalhadas por aí

trajetória de EVA


serpente
entre a mente e o pente
entre o ser e os fios longos
entre a boca e o rabo
entre a mulher e a árvore
desvaginada,
cobra
me mastigue
e me conduza,
dos seus dentes até sua bunda
até unir
meus começos aos meus fins.

domingo, 17 de abril de 2016

Prazer, eu não me chamo Alice


Há um livro cujo nome é "Hoje Eu Sou Alice". Não o li mas ele basicamente conta sobre uma menina esquizofrênica a qual, em meio a outros problemas agravando o distúrbio, todo dia assume um nome diferente, e assim, personalidades diferentes. Não quero entrar no mérito dessa história da qual só sei o enredo, essa história que é uma das várias envolvendo esse nome tão carregado. Quero só pinçar o fato a seguir como pretexto para o que vou abordar aqui: Alice é um dos nomes que a protagonista veste e, ainda que dentro do contexto específico dela, é um dos nomes que ela recebe sem o ter de fato. Um dos nomes, externos a ela, assimilados. Um dos nomes nos quais ela se transforma. 

Já esse espaço surge da concepção de nos criarmos justamente a partir daquilo que não temos. Eu me re-crio a partir do fato do meu nome não ser Alice. Eu me refaço a partir de um não. Nos reconhecermos em nós através daquilo que já temos é um desafio. Que isso se expresse pelo contentamento com o próprio nome, que isso se expresse pelo conceber o próprio corpo. Que isso se expresse pelas meninas gostando de seus nomes, que isso se expresse pelas meninas gostando dos seus membros. 

Eu não me chamo Alice. Eu não me chamo vários outros nomes que podem conotar poder, mas eu me chamo o meu nome, apesar de poder escolher outros que me tenham. Eu tenho o meu nome pra dar, eu tenho os nomes me definem pra dar, e ainda assim não quero dar nada que não seja eu.

Eu Não me Chamo Alice é sobre anterior a ser fiel ao que se é, é buscar as medidas daquilo que se é. Eu sei que a personagem do Karim Ainouz, que no caso era Alice de fato, conseguiu os dois na série homônima. Eu sei que a poeta Alice Ruiz, como profetizou seu companheiro Leminski, foi além das próprias pernas ao querer, no traço da sua palavra, ser exatamente aquilo que ela é. Eu sei que a Alice do Lewis Carrol, teve a pele e a estatura manipuladas como uma sanfona, atravessou espelhos, só pra chegar em si. Mas não precisa ser Alice, nenhuma delas, pra atingir o mesmo; em qualquer nome cabe isso.