Há um
livro cujo nome é "Hoje Eu Sou Alice". Não o li mas ele
basicamente conta sobre uma menina esquizofrênica a qual, em meio a outros
problemas agravando o distúrbio, todo dia assume um nome
diferente, e assim, personalidades diferentes. Não quero entrar no
mérito dessa história da qual só sei o enredo, essa história que
é uma das várias envolvendo esse nome tão carregado. Quero só
pinçar o fato a seguir como pretexto para o que vou abordar aqui:
Alice é um dos nomes que a protagonista veste e, ainda que dentro do
contexto específico dela, é um dos nomes que ela recebe sem o ter
de fato. Um dos nomes, externos a ela, assimilados. Um dos nomes nos quais ela se transforma.
Já esse
espaço surge da concepção de nos criarmos justamente a partir daquilo que não temos. Eu me re-crio a partir do fato do meu nome não ser Alice. Eu me refaço a partir de um não. Nos reconhecermos em nós
através daquilo que já temos é um desafio. Que isso se expresse pelo contentamento
com o próprio nome, que isso se expresse pelo conceber o próprio
corpo. Que isso se expresse pelas meninas gostando de seus nomes, que isso se expresse pelas meninas gostando dos seus membros.
Eu não me chamo Alice. Eu não me chamo vários outros nomes que podem conotar poder, mas eu me chamo o meu nome, apesar de poder escolher outros que me tenham. Eu tenho o meu nome pra dar, eu tenho os nomes me definem pra dar, e ainda assim não quero dar nada que não seja eu.
Eu Não me Chamo Alice é sobre anterior a ser fiel ao que se é, é buscar as medidas daquilo que se é. Eu sei que a personagem do Karim Ainouz, que no caso era Alice de fato, conseguiu os dois na série homônima. Eu sei que a poeta Alice Ruiz, como profetizou seu companheiro Leminski, foi além das próprias pernas ao querer, no traço da sua palavra, ser exatamente aquilo que ela é. Eu sei que a Alice do Lewis Carrol, teve a pele e a estatura manipuladas como uma sanfona, atravessou espelhos, só pra chegar em si. Mas não precisa ser Alice, nenhuma delas, pra atingir o mesmo; em qualquer nome cabe isso.